Eu li: O diário de Anne Frank (The diary of a young girl)

20/02/2011

in Entretenimento, Livros

Eu confesso que torci o nariz quando vi que o tema de fevereiro do Desafio Literário era biografia ou memórias. Não é um dos meus estilos preferidos, eu gosto mais de ficção. Mas aí lembrei que eu sempre quis ler O diário de Anne Frank e foi uma ótima oportunidade para tal.

Eu não sei o que me atrai nessa temática da Segunda Guerra Mundial, pois esse foi o terceiro livro que li com o pano de fundo dessa época. Os dois primeiros foram ficção (O menino do pijama listrado e A menina que roubava livros), e esse foi real. Freud explica.

Anne Frank era uma menina alemã judia, que morava com sua família na Holanda. Ela tinha 12 anos quando foram forçados a se esconder num armazém, em 1942. Junto da família Frank ficou também a família dos van Daans e um dentista solteiro. Oito pessoas confinadas num espaço, por dois anos, sem poder colocar o nariz para fora. Eles eram ajudados por amigos cristãos, que trabalhavam nesse armazém. Os amigos traziam comida, livros, roupas, e o que pudessem para fazer com que a vida dos fugitivos fossem o mais “confortável” possível.

Pouco antes de se esconderem, Anne ganhou um diário de presente e foi nesse livro que ela escreveu sobre a vida no Anexo Secreto, como eles chamavam o esconderijo. Anne escrevia sobre como as pessoas do Anexo se relacionavam umas com as outras, as brigas, os conflitos, as risadas, os medos. Ela também escreveu sobre si mesma, sobre suas descobertas como adolescente, seus sonhos, suas dúvidas.

Eu me identifiquei muito com a Anne, lembrei nitidamente de quando eu tinha a mesma idade que ela e vi, mais uma vez, como todos nós somos iguais, independente de onde nascemos, nosso credo ou cor. Todos nós passamos pelos mesmos desafios na vida, as mesmas fases. Anne não se dava bem com sua mãe. Há várias passagens no livro onde ela fala da relação dela com a mãe e como ela não se sentia amada por ela. Anne é a típica adolescente que acha que sabe de tudo na vida e não precisa de ninguém. Eu meneei muito minha cabeça folheando as páginas do livro, relembrando a minha própria arrogância e teimosia na mesma idade.

Aqui ela fala sobre os conflitos entre os moradores do Anexo e o motivo pelo qual eles se bicam:

8 de novembro de 1943
Eu não consigo imaginar como o mundo vai voltar a ser normal novamente pra nós. Eu falo sobre “depois da guerra”, mas é como se eu falasse sobre um castelo no ar, algo que nunca pode se tornar real.

Eu vejo nós 8 aqui no Anexo como um pedaço de céu azul cercado de nuvens pretas ameaçadoras. O pedaço perfeito onde estamos ainda é seguro, mas as nuvens estão nos rodeando, e o anel que nos cerca e o perigo estão apertando cada vez mais. Estamos cercados de escuridão e perigo, e no nosso desespero acabamos esbarrando uns nos outros. Nós olhamos para a luta lá embaixo e a paz e a beleza lá de cima. Enquanto isso, somos fechados pelo nevoeiro, de forma que não podemos nem descer e nem subir. Ele nos cerca como uma parede impenetrável, tentando nos esmagar, mas ainda sem conseguir. Eu só consigo gritar e implorar: “Anel, anel, abra e nos deixe sair!”

Uma coisa que me deixou muito surpresa, entretanto, foi a sabedoria de Anne, e como ela amadureceu durante sua permanência no Anexo Secreto. O mundo estava explodindo do lado de fora, eles não sabiam se sairiam dali vivo ou mortos, e ainda assim Anne encontra motivos para sorrir e encorajar os leitores a ver o lado bom da vida. Anne era confortada pela natureza, adorava contemplar o céu pelas frestas das janelas. É uma tremenda lição de vida.

23 de fevereiro de 1944
“Enquanto isso existir”, eu pensei, “esse sol, esse céu sem nuvens, e desde que eu consiga curti-los, como posso ficar triste?”

O melhor remédio para aqueles que estão com medo, sozinhos ou infelizes é sair pra algum lugar onde possam ficar sozinhos, sozinhos com o céu, a natureza e Deus. Só então é que você sente que tudo está como deveria estar e que Deus quer que as pessoas sejam felizes com a beleza e a simplicidade da natureza.

Desde que isso exista, e deve ser pra sempre, eu sei que haverá consolo para toda dor, qualquer que sejam as circunstâncias. Eu acredito firmemente que a natureza traz conforto para aqueles que sofrem.

Me dava um aperto no peito de tentar me imaginar na situação dela. Imagina passar dois anos – DOIS ANOS – presa num lugar sem poder abrir uma janela, sentir o vento bater no rosto ou sentir o sol na pele? Dois anos comendo comida racionada, muitas vezes até podre. Dois anos compartilhando um único banheiro com 7 outras pessoas, com horário pra dar descarga pra não deixar ninguém ouvir a água passando nos canos da parede. Dois anos vivendo na expectativa que alguém ia encontrá-los ou denunciá-los. Dois anos ouvindo aviões voando no céu, tiros e bombas em todo o canto. E ainda assim, ela muita vezes se dizia feliz. Feliz por ter onde se esconder. Ela tinha esperança de continuar com sua vida assim que a guerra acabasse. Ela tinha planos, sonhos.

O diário termina no dia 1 de agosto de 1944. No dia 8, eles foram descobertos e as famílias foram separadas e levadas para campos de concentração na Alemanha e na Polônia. Anne e sua irmã mais velha, Margot, morreram em maio de 1945, de uma doença contraída no campo de concentração. O pai de Anne, Otto, foi o único sobrevivente do Anexo. Foi ele quem autorizou a publicação do diário de Anne, que era um desejo da menina, explicitado no seu próprio diário.

Eu gostei muito de ler esse livro. Pode parecer algo sádico, mas ler sobre o sofrimento dos outros nos dá uma outra perspectiva na nossa própria vida. A gente tende a reclamar tanto de coisas tão pequenas… e quando a gente vê como tem tanta gente no mundo que sofre tanto mais que nós, é que cai a ficha e a gente para de reclamar pra agradecer mais.

E tem mais. Tem alguma coisa de intrigante em ler um diário. Porque diários teoricamente são secretos, privados. Ao ler um diário, temos acesso ao mais íntimo dos sentimentos do autor, é assim que a gente conhece mais a pessoa. E Anne era como eu, que se expressa muito melhor escrevendo do que falando.

Se fosse nos dias de hoje, Anne teria um blog, com certeza. E eu seria uma das suas leitoras.

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Mi Müller February 20, 2011 at 08:00

Ah Ana esse livro é mesmo muito bom. Eu li a primeira vez quando tinha a idade da Anne, foi tão transformador, sabe aquela coisa de nos darmos conta que teve gente que não teve oportunidade de ter uma vida boa e confortável como a nossa? Foi assim que me senti, desde aquela época sempre me interessei por esta temática, meu livro principal do desafio também foi um diário sobre a Segunda Guerra, tenho vários aqui em casa, acho que deve ser uma maneira de nunca esquecer que seres humanos são capazes das maiores atrocidades contra seus semelhantes.
estrelinhas coloridas…

Maria Clara February 20, 2011 at 08:14

Olá, Ana Paula. Esse mundo de blogs é muito legal pq sempre descobrimos coisas novas. Hoje, descobri o seu blog! Eu também moro fora do Brasil, em Jacarta, na Indonésia. Vim pra cá quando meu filho, João, tinha só 3 meses e foi bem punk, hehhe! Ah, e já morei no Canadá, mas não conheci Vancouver!
Gostei de saber mais sobre esse livro, que faz parte de uma imensa lista imaginária de obras que penso em ler um dia.

Abraços

Tereza Fagundes February 20, 2011 at 08:46

Querida, todos nós vivemos de alguma forma um pedacinho da Anne Frank.
Somos filhos e netos dos que sofreram as atrocidades da guerra. Participamos indiretamente desse sofrimento. Meu pai é filho de um fugitivo da guerra na Alemanha. Meu vô Kuntze nos deixou essa dor como herança. Muitos conseguiram superar mas infelismente ainda encontramos vestígios em muitos corações.
Beijos!!

Jaque February 20, 2011 at 08:47

Faz tempo que penso em ler este livro. Comecei a ler alguns fragmentos e confesso que fiquei curiosa…

Fabíola February 20, 2011 at 08:57

Eu lia esse livro na adolescência e acredite, passei a escrever para Anne em um ano. Escrevia cartas para ela e tudo que saia dela nos jornais eu recortava. E sai até bastante coisa. Gosto muito de ver tudo o que escrever dela e adorei seu post. Realmente ela amadureceu de uma forma tão espetacular que só mesmo ela para ter crescido daquela forma.

Beijos e boa semana!

vivi February 20, 2011 at 11:31

Ana Li Anne faz alguns anos e preciso relê-lo :) Adoro os assusntos ligados a 2º guerra, algo bem parecido com vc. Já li e vi o filme O menino do pijama listrado e A menina que roubava livros e adorei. Acho que gosto de ler para lembrar que o mundo nunca mais deveria passar por algo do tipo. Anne foi bem especial pra mim, eu embarcava junto em cada capítulo do livro e confesso que estiquei o máximo para não terminar de ler. Anne seria uma ótima blogueira :)

Elisa February 20, 2011 at 16:29

Você escreveu de uma forma que quem ainda não leu vai correr pra fazê-lo, como eu rs. Quando eu terminar “O ensaio sobre a cegueira” de Saramago, partirei pra Anne.
Beijos

Daniela February 20, 2011 at 17:28

Ana, muito bom o seu texto, li esse livro quando tinha uns 13 anos, eu acho. Li também um outro livro, chamado O outro lado do diário, se não me engano, li pouco tempo depois. Achei uma descrição na internet, não sei se vc conhece este livro, lembro q na época gostei muito de ler esta outra visão:
‘Anne Frank é lembrada como símbolo do extermínio de milhões de judeus. Seu drama e o de sua família são vistos agora de um ângulo diferente, o da mulher holandesa que ajudou os Frank durante os dois anos que passaram escondidos dos nazistas num sótão de Amsterdã, e que se tornou único elo entre eles e o mundo exterior.”
Depois, com uns 18 anos, viajei para Amsterdam e visitei a casa onde Anne Frank se escondeu. Nossa, foi uma experiência incrível, muito forte mesmo.
Bjs!
Daniela

César February 20, 2011 at 19:13

Eu sempre ensaiei ler o livro mas com essa análise sua vou começá-lo logo que puder.

E a vida segue…

Mônica Japiassú February 21, 2011 at 05:27

Ana, adorei a resenha que você escreveu sobre o livro. Deu vontade de lê-lo. E já fiquei com pena de saber que Anne não conseguiu sobreviver por muito tempo depois de sair do Anexo Secreto.
Bem, talvez Anne não tivesse um blog se isso acontecesse hoje pois não haveria conexão sem fio que ela conseguisse utilizar. Heheheh! Mas se tivesse, eu tb seria sua leitora!
B-jim!

Xris February 21, 2011 at 09:42

Também deu vontade de ler… Embora eu tenha plena consciência de que vou chorar horrores como no filme “O menino do pijama listrado”… Essa temática mexe muito comigo…

Bjs, saudades…

Mi February 21, 2011 at 10:04

Eu tb acho o tema da 2a guerra super interessante e li varios livros a respeito..inclusive o diarionda anne Frank. Mas odiei! Hehe nao sei explicar ao certo mas ela me pareceu muito bobinha e reclamava de coisas absurdas, ate pq eles tinham uma vida relativamente boa no anexo secreto se comparado com outros judeus. O jeito alienado dela que nem parecia estar vivendo uma guerra me deixava com raiva e no fim das contas nao fiquei triste com a historia dela. Mesmo assim visitei o anexo secreto qdo estive em Amsterdam e é super interessante…apesar de so reforçar meu presentimento que eles tinham muita sorte de ter tido um esconderijo tao confortavel. Infelizmente isso nao ajudou muito no fim das contas. Bjs!

claudia February 23, 2011 at 09:18

Ana, o livro eh lindo mesmo. Eu o li na adolescencia e fiquei fascinada pela Anne Frank. Meu sonho era ir no museu da Anne Frank em Amsterdam (alias, ainda o eh).

Uma sugestao de um filme para voce assistir e que – de alguma forma – esta ligada a esse livro: “Freedom Writers”. Acho que, assim como o diario da Anne, ele toca a quem ama as palavras e faz bom uso delas.

Bibs February 23, 2011 at 20:34

sempre quis ler esse livro, mas fui inventar de assistir o filme antes, e achei maçante!
mas pelo que você resenhou, e os trechos que colocou, parece ser um ótimo livro. vou dar uma chance!

adorei sua resenha!

beijos
bibs

roberta costa February 24, 2011 at 11:03

linda história tbm gosto de livros dessa época

Ingrid February 25, 2011 at 03:45

Eu confesso que li e reli Anne Frank, inclusive vi o filme, passei varias vezes na porta da casa dela em Amsterdam (moro na Holanda, nunca entrei pq me recuso a pagar 9 euros e enriquecer ainda mais uma instituicao que eu nao apoio) e ao contrario de todo mundo, eu nao gostei, nao consigo ver Anne como a voz e o retrato do sofrimento causado pelo Holocausto, fico com os registros, cartas e fotos dos anonimos. =)
Outra coisa que me incomoda muito eh toda publicidade em volta de Anne Frank, as vezes penso que tudo isso acontece por que ela era branca, europeia e pertencia a uma familia judia, qdo vejo o diario de Anne penso nas meninas romenas (ciganos tb foram perseguidos e mortos), as filhas de comunistas, as negras e tantas outras nao judias que por algum motivo tiveram suas vidas interrompidas com tamanha crueldade mas por serem meras desconhecidas foram esquecidas e ignoradas, ou todo mundo acha que somente Anne escreveu um diario?
Qdo falamos de segunda guerra olhamos apenas para os judeus (Thanks Spielberg), mas como boa historiadora devo lembrar que nao, nao foram apenas judeus que morreram nessa barbarie.

Nesse exato momento pensei tambem nas meninas palestinas, que hoje na idade de Anne vivem em campos de refugiados, essas tambem certamente nao terao diarios publicados.

Espero nao ofender ninguem com minha opniao, nao eh essa a intencao!

Beijocas

Mônica Carneiro February 25, 2011 at 15:25

Ainda não li este livro, acho que vou chorar muito, por isso fico adiando esta hora kkkk Boa sua resenha, bjs

Roberto February 26, 2011 at 07:45

Poxa esse livro está na minha lista para ser lido também. Eu conheci a história da Anne Frank tem um tempo, quando estive em Amsterdã e entrei no museu, nossa a energia daquele lugar é uma coisa. Gostei muito.. recomendo a todos Ana!

Vivi February 27, 2011 at 07:15

Quero muito ler o livro. Interesso-me pela temática e a sua resenha não deixou a desejar: aguçou o desejo intensamente.

Bjs

Vivianegabi March 2, 2011 at 19:17

Meu conentario nao entrou, vou repetir. Fui ao anexo secreto em amsterdam e vale muito a pena. O museu é impressionante. Li o ivro ainda adolescente mas vou reler a versao q comprei no museu. agora mais madura, tendo visto o local, sera uma experiencia unica. Bjs

Bruna March 3, 2011 at 13:38

Eu também li os 3 livros que você citou. O Diário de Anne Frank eu li quando tinha 17 anos. Depois de uns 2 anos li novamente.
Uma leitura interessante e ao mesmo tempo triste, não tem como não se colocar no lugar dela, afinal de contas, é uma história real né?
Abraço.

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