Profissão: Mãe

01/10/2009

in Maternidade,Papo de mulher

Neste verão, num dos nossos passeios, eu conversava com uma adolescente que veio estudar um ano aqui. Perguntei sobre sua família. “E sua mãe, trabalha?”, eu perguntei. “Não, ela não faz nada, só cuida da casa.”

Hã? Não faz nada?

Sério, eu quase voei no pescoço dela. Cuidar da casa e da família não é nada?

Recentemente, a Amanda comentou no meu blog:

De tempos em tempos penso em jogar tudo pro alto e apenas viver o papel de mãe. Mas, depois, fico pensando no que vou responder quando me perguntarem com o que trabalho. E fico com vergonha de dizer que sou apenas mãe.

Apenas mãe.

Foto: 27147, no Flickr, sob Licença Creative Commons

Foto: 27147, no Flickr, sob Licença Creative Commons

A minha foi apenas mãe. Largou os estudos e o trabalho pra ficar em casa, cuidando de mim e da minha irmã. Foi opção dela, mas foi meio falta de opção também. Alguém tinha que cuidar da gente. E é a mulher que eu mais admiro neste mundo. Eu sempre dizia que se fosse metade da mãe que a minha foi, eu já estaria satisfeita. É uma pena que nem todo mundo dá o mesmo valor às mães que são apenas mães.

Eu não estou dizendo que a mulher não deve trabalhar fora. Tem gente que não nasceu pra viver dentro de casa (eu suspeito que sou uma dessas). Tem gente que precisa trabalhar pra sustentar o lar. Mas eu não vou entrar por este rumo. Eu quero falar daquelas que são apenas mães, seja por opção ou falta dela.

Eu percebo que muitas, como a Amanda, tem vergonha do papel de dona-de-casa. As stay-at-home-mothers, como são chamadas por aqui, não são valorizadas talvez em parte nenhuma do mundo (ou pelo menos no ocidente). A geração das mulheres que ganharam o mundo corporativo nos fizeram acreditar que a mulher tem que ser multi-tarefa, uma super-mulher. E que ela só vai ser feliz se conseguir ser a melhor equilibrista do mundo. Então, se você é apenas mãe, você não é tão valorizada, porque não “trabalha”.

Foto: KatieL366, no Flickr, sob Licença Creative Commons

Foto: KatieL366, no Flickr, sob Licença Creative Commons

O que ninguém vê é que pra uma mulher sair de casa pra trabalhar, vai ter que bancar uma estrutura pra cuidar do resto. Contratar empregada, babá, ou contar com ajuda da família pra cuidar das crianças enquanto está ganhando o seu salário lá fora. Esses funcionários vão receber salário pra fazer o que a mulher faria se não trabalhasse fora. Ou seja, é trabalho SIM. Limpar a casa, fazer comida, lavar a roupa, levar e buscar da escola, brincar no parquinho… tudo isso é trabalho. As professoras da creche ganham pra cuidar das crianças. As apenas-mães não ganham um centavo pra cuidar das mesmas crianças.

É uma profissão meio ingrata, mas infinitamente sublime. Não, a mãe não ganha salário pra cuidar da casa e dos filhos. A mãe só é cobrada. Só falam alguma coisa quando algo não foi feito, porque quando tudo está no lugar, limpo e cuidado, ninguém comenta, não há elogios. E isso abate a auto-estima da mulher. Porque ela não tem nenhuma “recompensa” por este trabalho. Ela se doa por completo, simplesmente, como um trabalho voluntário.

Um dia eu estava voltando do médico, de ônibus, com Alice no carrinho e a Laura sentada no meu colo. Um senhor me olhava com os olhos cheios de ternura e me disse:

“Você sabia que o seu trabalho é o mais importante do mundo?”

Eu sorri. Ele viu ali a apenas-mãe que eu agora sou.

Foto: sean dreilinger, no Flickr, sob Licença Creative Commons

Foto: sean dreilinger, no Flickr, sob Licença Creative Commons

Ontem terminou o meu ano de licença maternidade, quando eu fui apenas mãe. Foi um ano maravilhoso. Difícil, tumultuado, é verdade, mas inesquecível. Eu aprendi tanto, eu tomei mais gosto pelas coisas da casa (tá, não tanto gosto assim!). Eu vivenciei cada momento do primeiro ano da Alice. Eu estive mais perto da Laura. Até falei pro André um dia desses que agora é que estou com a sensação de que somos uma família. Sabe aquela imagem da mãe, do pai, e dos filhos pequenos? Dos passeios em família, do caos da casa, das risadas e cócegas… Não que antes não fôssemos família, mas agora é diferente. Talvez porque este é o retrato da família que eu tive, da mãe que ficava em casa com as crianças e do pai que saía de manhã e chegava de noite.

Ainda tenho minhas recaídas e dúvidas sobre o que fazer da vida, se ser apenas-mãe é o que eu realmente quero (provavelmente não). Por hora eu deixo os questionamentos pra lá e estou curtindo essa fase nova da minha vida. As crianças vão crescer e eu vou poder voltar ao trabalho no futuro. Planos não faltam.

Mas nunca vou desvalorizar o trabalho de mãe. Nunca. Eu concordo com o senhor do ônibus. Este é sim o trabalho mais importante do mundo. E não tem preço, nem salário. Não importa. Eu tenho muito orgulho da minha mãe e um respeito enorme por todas as apenas-mães que existem por aí. Porque é trabalho que não tem fim, não é remunerado, é estressante pra caramba, mas é essencial.

Mães, não se sintam envergonhadas por serem donas-de-casa. Quando perguntarem a sua profissão, erga a cabeça e diga sorrindo que é apenas-mãe. E não interessa o que os outros achem, dentro de si você deve acreditar que o seu trabalho é tão importante – ou mais até – do que o daqueles que saem de casa todas as manhãs para ganhar seus salários. E nunca deixem ninguém dizer que vocês não fazem nada. Nós, mães, trabalhamos sim, e muito.

Related Posts with Thumbnails

{ 53 comments }

Sueli May 27, 2011 at 09:11

Oi mamaezinhas…bom pessoal,eu tambemme encontro nesta situação ,apenas – mãe, ( e graças a Deus porque este foi o meu maior sonho), mais não nego que não acordo todos os dias triste, uma cobrança interna e externa que me sufoca, eu mecobro porque sempre trabalhei desde os 15 anos até meus 34 anos, foi quando resolvi parar engravidei e estou até hoje, atualmente com 37 anos, me cobro porque quem já trabalhpu fora sabe que isto não sai da sua cabeça., e sinto a cobrança da familia do meu marido ( meu marido entende e me apoia. O que fazer para tirar esta angustia do peito, tenho dó de deixar meu filho o dia inteiro em uma escola eu penso assim ( vou pagar para alguem acompanhar o crescimento do meu filho que tanto sonhei só porque é bonito ) é justo com ele , é justo com meu sonho de ser mãe, porque se fosse para eu não acompanhar eu teria optado não ter filhos.
Quero uma ocupação meio período aonde possa continuar vendo meu filho crescer ou filhos pois quero ter outro. Se Deus quiser e ele sempre me ajuda eu arrumarei alguma ocupação meio período, só para acabar com a culpa e mesmo assimainda acompanhar meus filhos.
Quem quiser conversar sobre isso meu e-mail é sueli.zampirollo@bol.com.br
Beijos a todas…………….

Comments on this entry are closed.

Previous post:

Next post: