Diz o ditado que ser mãe é padecer no paraíso. Hoje eu realmente entendo o que isso quer dizer. É muito mais comum a gente ler por aí a parte do paraíso que diz respeito à maternidade: as coisas fofas que os bebês – e as crianças – fazem, as alegrias, as descobertas, o sentimento de amor infinito que invade os nossos corações, os sorrisos, as risadas. Até aqui mesmo no blog, eu sempre falo do lado bom de ser mãe. Mas o outro lado existe também.
Antes, quero deixar bem claro: eu AMO minhas filhas, AMO ser mãe, e não me arrependo das minhas escolhas. Pronto. Já cobri essa parte. O que não invalida o “padecer” que vem adiante.
Ser mãe 24 horas é cansativo. Muito. Na fase da Alice, o cansaço é físico. Tem horas que ela só quer colo, se não tá no colo, chora. Na fase da Laura, o cansaço é mental. Ela já argumenta, responde, pergunta, chora.
Laura é teimosa (e eu nem sei quem ela puxou…). Laura pensa que ganha a gente no choro e na manha. Ontem eu fui firme e não cedi ao choro manhoso dela, que queria bombom, quando não cumpriu o nosso combinado (tomar o copo de vitamina de abacate). Custou, mas eu não cedi. E haja paciência pra aguentar a choradeira homérica, de soluçar e tudo, os socos na bancada da pia, só porque eu não ia fazer o que ela queria. Vou te contar, não é mole não.
Eu me sinto uma malabarista, tendo que equilibrar um bebê, uma criança, uma casa. Esses três são sempre a prioridade, claro. E eu fico sempre por último. Eu como correndo, ou com Alice no colo. O banho tem que ser rapidinho, eu tenho que escolher se vou lavar o cabelo, raspar o braço ou a perna, ou lixar os pés. Não, não dá pra fazer tudo num banho só. Hidratante? Só se as duas estiverem calminhas, brincando e felizes e puderem esperar mais 5 minutos pela minha presença. Tem dias que eu esqueço mesmo.
Depois que a gente tem filho, a gente muda. Os primeiros meses depois que o bebê nasce são os mais complicados, a mãe se ajustando, a criança se ajustando também. A dinâmica da casa muda. Eu me senti como se fosse outra pessoa e é tão estranho não se sentir você mesma. E você ainda não sabe quem você é. É como se a Ana Paula que eu conheço tirasse férias e viesse outra moça ocupar o lugar dela momentaneamente. E até “conhecer” essa outra moça, que depois você descobre que veio pra ficar, você fica perdida, literalmente. Eventualmente você se acostuma e incorpora a nova pessoa que se tornou, mas demora. Enquanto isso, a angústia de não se saber é é grande.
Eu nem sei se estou fazendo sentido no que escrevo. É difícil colocar em palavras a confusão da cabeça de uma mãe recente. Mãe tem que ser camaleão. Mãe não pode ter medo de mudança. Mãe tem que ser flexível.
O pai? Não posso reclamar do André não, verdade seja dita. André é um paizão, ajuda com as meninas, com a casa. Muito mais do que eu podia pedir. Ainda assim, não sei o que é, mas a cabeça de mãe acha sempre que a responsabilidade é dela. Mesmo quando ele fica com as meninas pra eu poder tomar banho, por exemplo, eu faço tudo correndo pra liberá-lo. É coisa minha,
que eu ainda estou trabalhando pra me libertar disso. Pra aceitar ajuda verdadeiramente, digo, liberar a minha cabeça e ficar bem com o fato de que eu não preciso carregar tudo nas costas sozinha. Hoje de noite vai ser um exercício desses: vou encontrar com umas amigas – só mulheres, a maioria mães. André vai ficar com as meninas. Eu tô com o coração apertado, acho que não vou parar de pensar neles em casa, mas preciso sair.
Só sei que cabeça de mulher é complicada. Demais. Eu me questiono o tempo todo. Eu sinto culpa se quero dedicar um tempinho que seja pra mim. Alice está dormindo agora, Laura na escola. E eu aqui, escrevendo. A casa tá mais ou menos cuidada. Ainda assim, o tempo que fico aqui, escrevendo ou fazendo outra coisa qualquer no computador, é com culpa. Que eu não deveria estar aqui, que eu deveria estar cuidando da minha casa.
Já li que pras crianças (ou a família) ficarem bem, a mãe tem que ficar bem, tem que se cuidar. Como é difícil. Talvez porque eu tive um exemplo de dedicação extrema em casa, da mãe que largou tudo pra cuidar e só cuidar. E talvez eu me compare e vejo que não me dedico tanto, me sinto egoísta por querer cuidar de mim. Sei lá, Freud explica.
Viu só? Sabe aquela mãe no parquinho com três crianças, rindo e batendo papo toda sorridente, empurrando o mais velho no balanço, enchendo o baldinho do mais novo de areia? Aquela que parece ter a vida perfeita, crianças lindas, com saúde? “Ai, como é lindo ser mãe!” Aposto que lá no fundo ela também tem seus momentos de crise de identidade, de cansaço, de vontade de sumir. É normal. É o outro lado, aquele que não está nas revistas, nem nos livros, aquele de que ninguém fala porque pode soar mal.
Espero não estar assustando as que ainda não são mães. Ser mãe é maravilhoso – leia o segundo parágrafo de novo. Eu só quis escrever um pouco sobre a parte do padecer do ditado. Ainda assim, não trocaria isso tudo por nada. Amo minha vida como ela é. Os paradoxos da minha cabeça me fazem entender que isso tudo me faz crescer, é assim que é a vida adulta. E algo ainda me diz que eu vou sentir saudades disso tudo… do caos de viver numa casa com duas crianças pequenas.
Imagens, no Flickr, sob licença Creative Commons: Cia de foto, lepiaf.geo, Anastassiya L, Pingu1963, rolands.lakis.








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Ana,
nem sei como cheguei por aqui mas amei o post. Amei a coragem e sinceridade. Ainda não sou mãe não mas tô treinando pra isso: há um ano tô aqui no Canadá, em Montreal, e tô trabalhando numa garderie com bebês de 6 à 11 meses. São 10 ao todo. Entendo ou não entendo do assunto?
Que Deus te abençoe muito com alegria, paciência, sabedoria e paz pra dar conta do recado maravilhosamente bem sempre.
Qdo vier a Montreal vamos tomar um café juntas com toda a turma!
Bjos
Ana, me senti no seu texto… muitas vezes é assim que me sinto…
bjs
Desde o nascimento do meu filho que tenho confabulado cá com meus botões, isso enquanto faço a enésima mamadeira do dia ou enquanto tento fazê-lo dormir à meia-noite e ele não quer, em escrever algo que dissesse respeito à maternidade. Mas não a maternidade estampada em capa de revista pela maioria absoluta das mulheres. Fico sem compreender porquê as mulheres escondem – não vejo como dizer de outra forma – não compartilham ? Tabu ? que, primeiro: o tornar-se mãe pode ser longo e é um aprendizado, um longo caminho a percorrer entre mãe e bebê, desde a gravidez; que o instinto materno é uma fábula, uma lenda, um meio que a mulher encontrou para tomar o espaço do paterno, para guardar uma certa áurea materna. Insisto em dizer: instinto materno não existe, pois um pai que cria o filho, uma tia, uma avó, uma babá dedicada, sabem o que quer o bebê quando chora, exatamente como a mãe. Ah não ser que a mãe tenha poderes extras, seja mediúnica, senão, ela não adivinhará nada sobre o filho. O que há é uma relação profunda que nasce entre os dois ou três – o pai também cria uma relação fantástica com o filho, quando damos espaço para ele existir muito além que apenas o provedor – em que os três aprendem a se conhecer. Depois, que o cansaço pode ser quase como uma dor em algumas fases da vida do bebê, que a vontade de ser livre como passarinho pode bater vez em quando, o fato da paciência ter que ser muito maior de que tudo que já nos haviam dito antes, que doar-se é muito bonito e muito duro também etc etc. E aí, o seu texto veio como uma luva descrever tudo que andava elucubrando em minha cabeça nesses poucos meses da existência de um menininho, que colocou minha vida de pernas pro ar e me fez repensar toda minha vida e o que seja, de fato, existir.
Sinto-me exatamente igual a você. Compartilho dos mesmos sentimentos e assino embaixo. Maravilhoso texto!!!
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