No casulo

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Toda vez que passo um tempão sem blogar, eu digo pra mim mesma que não preciso retomar o blog com um post explicativo sobre minha ausência. Eu deveria simplesmente escrever o post da viagem da Alemanha e pronto, sem nenhuma desculpa. Sem explicações. O blog já passou por hiatos em outros momentos. Se você me acompanha há bastante tempo, sabe disso. E toda vez que isso acontece – e tem acontecido com maior frequência nos últimos meses – eu fico achando que é hora de parar.

Só que, durante essa última pausa (que acaba hoje), eu percebi que preciso escrever. Que eu processo melhor meus pensamentos quando escrevo. Fiquei me perguntando como é que eu conseguia escrever tanto no passado? Por que é que eu era tão aberta e honesta sobre a minha vida? Percebi que os posts que eu mais gostava de escrever eram justamente aqueles quando eu abria o meu coração e escrevia com a alma. São os posts que mais gosto de ler, dos outros blogueiros também. Mas como fazer isso sem se expor demais? É isso que vou ter que descobrir, explorar novas formas de traduzir meus sentimentos em palavras. Porque escrever, pra mim, é uma terapia.

Um dos grandes motivos da pausa no blog é que estou focada agora em arrumar um emprego. Como é trabalhoso procurar emprego! Ainda mais nessa cidade entupida de bibliotecários formados e com pouquíssimas vagas abertas. Tenho encontrado pessoas da área, me apresentado, conversado sobre o trabalho de bibliotecário. O famoso networking. Eu detesto networking pra ser sincera. Não me agrada puxar papo com alguém que não conheço e tentar ser amigável. Eu sou tímida lá no fundo, introvertida. É um exercício extenuante pra mim. A minha cabeça não para. Fico imaginando o que a pessoa está achando de mim. Se estou incomodando. Se não estou sendo uma chata, sem graça. Mas é uma habilidade importante. Pra vida toda. E eu tenho tentado sair da minha zona de conforto. Mando emails pra quem não me conhece e solicito uma reunião, um encontro. Das três vezes que tentei (viu, não foi muito ainda!), eu consegui. Três em pessoa e uma por telefone. E, pra minha surpresa, as pessoas são receptivas. Algumas até extremamente generosas. Nenhuma delas tem como me contratar, mas é importante conhecer as pessoas de qualquer forma.

Participei de uma conferência das bibliotecas da província. Participei de um workshop de programação para crianças de zero a dois anos. Revisei meu currículo e carta de apresentação incontáveis vezes. Mandei currículos pra praticamente todas as bibliotecas da região. E não consegui nenhuma entrevista ainda. Nenhuma. Editei meu perfil no LinkedIn. Reativei meu blog em inglês e publiquei vários posts pra mostrar o que eu fiz na escola.

No mais, eu só sentei no meu sofá, desmotivada, frustrada, e sentindo pena de mim mesma por não conseguir um trabalho ainda.

Tentei me organizar em casa. Fiz listas de tarefas. Criei um cronograma semanal pra ver onde tinha tempo livre. Me inscrevi em cursos online antes da viagem em março (e não consegui retomar os módulos quando voltei de férias). Mas abril foi um mês complicado pra mim. Esse meu ciclo vicioso de baixa estima me deixou bem mal. Isso com uma TPM daquelas (com direito a dor de cabeça por vários dias) e eu não queria fazer mais nada. Nem mesmo aquilo que eu curtia antes, que me deixava pra cima. Nada.

Mas isso tem que mudar. [Leia mais...]

Sete dias, sete haicais

Você sabe o que é haicai?

É um poema de origem japonesa (em inglês, chama-se haiku) de forma bem simples. São três versos, com 5, 7 e 5 sílabas. Há outras regrinhas, mas eu fixei somente na forma pra fazer meus versinhos. Não sou poeta, afinal.

haiku1(terça, 4 de março)

Galochas rubi,
guarda-chuva aberto,
reflexo carmim.

haiku2(quarta, 5 de março)

Estar bem perto
do que me faz feliz:
Livros e livros.

haiku3(quinta, 6 de março)

Show favorito
deixa mais tolerável
tarefa chata.

haiku4(sexta, 7 de março)

Toda semana:
Nigiri e Alaska roll.
Textura, sabor.

haiku5(sábado, 8 de março)

Chuva, calafrio.
Careço colo, cuidado.
Corpo que clama.

(domingo, 9 de março, sem foto, por motivos óbvios)

Repouso, sossego.
Canso-me do descanso.
Hei de melhorar.

haiku7(segunda, 10 de março)

O sol brilhando.
Bom papo regado a café.
O dia foi bom.

Mais um item da lista de 101 coisas cumprido!

Audiolog #12: Disney e outros parques em Orlando

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Hoje tem a segunda parte do podcast sobre a Disney, respondendo perguntas de vocês leitores lá no Facebook e aqui pelo blog.

A Luciana Misura do blog Colagem, expert em viagem com crianças, me ajudou a responder as perguntas.

Duração: 39 minutos

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O que mencionamos neste programa:

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Não sabe como funciona o iTunes para podcasts? Aqui tem tudo explicadinho pra você aprender.

Eu li: A cabeça do santo, de Socorro Acioli

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Livro bom pra mim tem que ter pelo menos uma dessas duas coisas: ou um enredo muito bom, ou ser muito bem escrito. A cabeça do santo, de Socorro Acioli, se encaixa nas duas categorias.

Sinopse

O livro de estreia da autora no romance adulto conta a história de Samuel, um cabra desinfeliz lá do sertão do Ceará que acabou de perder a mãe e deve cumprir seu último desejo: acender três velas pros seus santos queridos e procurar por sua avó e pai, que a abandonou ainda grávida.

Sem um tostão no bolso, Samuel caminha durante dias e noites até chegar em Candeia, a cidade que sua mãe tinha escrito num pequeno pedaço de papel, junto com o endereço e os nomes completos do pai e da avó de Samuel. O rapaz acaba encontrando morada numa cabeça oca de santo Antônio, a cabeça de uma estátua gigantesca abandonada na cidade. O histórico da estátua degolada revela o motivo da decadência da cidade, praticamente uma cidade fantasma.

Acontece que Samuel começa a ouvir vozes dentro da cabeça do santo. Preces de mocinhas apaixonadas, pedindo a santo Antônio que lhes conceda casamento. Quando Samuel conhece Francisco, seu novo amigo decide se aproveitar do poder sobrenatural de Samuel para fazer dinheiro. O que sucede são dezenas de casamentos, tudo supostamente obra do santo.

A cidade revive, floresce novamente. Isso deixa alguns moradores da cidade furiosos e a vida de Samuel corre perigo. Entre esconderijos e fugas, Samuel conta com a ajuda de forças estranhas que o levam ao seu destino, cumprindo o dever que lhe coube e encontrando a paz que procura desde a perda da mãe.

Primícia literária

Eu sou amiga da Socorro há uns dez anos. Seria motivo suficiente para ser parcial na minha opinião, alguém poderia dizer. Porém, desta vez, seu mérito literário é superior a qualquer laço de amizade. Uma obra que levou tantos anos pra ficar pronta só poderia ter sido concebida com muito cuidado, com carinho, com muito esmero, tão claros no texto impecável de Socorro.

A começar dos títulos dos capítulos: todos uma única palavra, com a letra C. O som desta letra é bem presente em todo o texto. Quando li em voz alta diversos trechos, a aliteração foi inegável (e totalmente acidental, de acordo com Socorro). Eu lia baixinho e chiava com os cês, xis, dois esses e cê-cedilhas sibilantes. Eu parecia uma das moças sussurando uma oração a santo Antônio. Escrever desta forma é uma arte e isso me dá arrepios.

O livro é imbuído de uma nordestinidade peculiar, que só poderia ser descrita tão perfeitamente por uma filha da terra. O linguajar, o palavreado, o cenário. Tudo exclama nordeste. Parecia que eu estava lá com Samuel, vendo seus pés rachados na secura do solo, ou percorrendo as ruas sem asfalto de Candeia ou Canindé.

A cabeça do santo tem um quê de realismo fantástico. Também pudera, a ideia original foi trabalhada na oficina de Gabriel García Márquez, em Cuba, em 2006. A discípula de Gabo usou a abusou da inspiração do mestre para criar a história de Samuel. Coisas absurdas acontecem em Candeia. O que, para alguns, poderia ser apenas mera coincidência, para outros são sinais sobrenaturais oriundos da fé ou do inexplicável.

Há suspense, há humor, há mistério, há romance. Eu ri e chorei com Samuel. Torci por ele. Me surpreendi em alguns momentos, e em outros previ o resultado. É daquele tipo de livro que você tem que ler de novo pra catar as pistas que são jogadas pelo meio do caminho, como um quebra-cabeça.

Os personagens são incrivelmente bem elaborados. Não fica um fiozinho solto no final. Socorro nos guia pela vida de moradores de Candeia, do presente e do passado, entrelaçando trajetórias distintas que se convergem no final, quando tudo finalmente faz sentido.

Como um bom livro tem que ser.

ACIOLI, S. A cabeça do santo. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Goodreads | Socorro Acioli

A louca dos cadernos e o registro de memórias

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Amo cadernos. Amo papelarias. Desde pequena, alguns dos meus lugares preferidos eram: livrarias, papelarias e bancas de jornal (e revista).

Nem diria que sou obcecada com cadernos não. Não compro muitos. Porque sei que preciso usá-los e, com o passar dos anos, tenho perdido o hábito de escrever à mão. Estou tentando recuperar essa prática porque acho a escrita à mão uma coisa fascinante.

Mas o fato é que tenho esses cadernos em casa, alguns completando 10 anos já.

1. Agenda verde
Essa eu usei no ano passado. Não tem nenhum escrito relevante, só anotações de escola, lembretes. Agenda mesmo. Ainda tenho uns recortes dentro dela e por isso ainda não a descartei. Tenho que revisar essa papelada antes de me desfazer do caderno. Dá até pena porque é um Moleskine super bem feito, mas já cumpriu seu papel e não faz sentido continuar mantendo tralha em casa se não vou mais usá-lo, certo?

2. Caderno de anjinhos
Esse eu comprei pra fazer um diário e entregar pra Laura quando ela crescer. Comecei a escrever nele em julho de 2004 e não cheguei nem na metade do caderno ainda (tem 96 folhas). Escrevi mais quando ela era bebê, e depois tem buracos enormes de vários meses e até anos. A última vez que peguei pra escrever nele foi em agosto de 2012.

3. Caderno de flores
Eu me apaixonei por esse aqui na Chapters e comprei, em 2012. Não sabia ainda o que ia fazer com ele. Aí comecei a rascunhar coisas sobre meu desejo de ser escritora. Só tem sete páginas escritas.

4. Diário da gratidão
Esse faz parte da minha lista de 101 coisas. Comecei em janeiro do ano passado e até tenho escrito bastante nele. Não todos os dias como deveria, mas sempre que lembro (e dá vontade) eu escrevo. A ideia é escrever três coisas que foram legais no seu dia, todos os dias.

5. Caderno da Unimed
Esse tem uma década também, ou mais. Usei como diário por um tempo, lá atrás, mas é igual o caderno da Laura, está cheio de buracos.

6. Caderno vermelho
Esse eu comprei no ano passado. Era pra ser um diário dos livros que leio. Fiz algumas páginas e depois parei. Hoje peguei de novo e resolvi que vou fazê-lo de diário mesmo. Deveria continuar usando o caderno 5 pra isso, mas resolvi chutar o balde e desafiar minha neura de organização e linearidade com essa coisa de registrar a vida.

7. Caderno de borboleta
Esse é o caderno da Alice. E como segundo filho é filho de uma mãe que já não faz tudo como no primeiro, há pouquíssimas páginas escritas pra ela. Certeza que um dia ela vai debater a falta de amor da mãe com algum analista. Meu consolo é que o dia que ela tiver o segundo filho (se acontecer), ela vai me entender. Espero.

8. Finish this book, da Keri Smith
Não é bem um diário, mas comprei tem um tempo e não terminei também. Rá! Que ironia! Não terminei nem esse, nem nenhum outro livro ou caderno. Esse tem exercícios criativos pra você completar o livro. A autora fala pra você desenhar, observar e documentar diversas coisas.

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E eu fico pensando nessa minha necessidade de registrar a vida enquanto ela acontece. Já fiz muito aqui no blog também.

Por que será que a gente precisa escrever sobre o que acontece com a gente?

Por que precisamos tirar tantas fotos?

Pra quê? Pra quem?

Uma das minhas respostas é: para os nossos sucessores. Mas será mesmo que minhas filhas e futuras gerações vão querer folhear e ler tanta coisa que eu deixei registrado? Será que vão querer saber quem eu era e como eu vivia? As coisas que fiz? As coisas que eu pensava? Será mesmo?

Outra resposta é: pra mim mesma. De vez em quando eu me pego lendo os arquivos do blog, ou folheando um álbum de fotos antigo. Eu gosto de rever o passado e observar a trajetória que minha vida tomou de lá até aqui. É gostoso relembrar.

Ao mesmo tempo a gente gera muita tralha. Principalmente com os cadernos físicos. Eu ainda tenho guardadas minhas agendas e diários de quando era adolescente. Minha mãe já trouxe tudo pra mim. Estão dentro do armário, dentro de sacos, intactos. Eu mesma ainda não peguei pra reler. Das poucas vezes que folheei alguns daqueles cadernos, me surpreendi com a pessoa que os escreveu. Coisa de doido mesmo. Ainda estão guardados na esperança de serem lidos. Talvez para inspiração. Para eu poder relembrar como é ser adolescente.

Entra a questão da digitalização. Será que não seria mais fácil escanear tudo? Fotografar, sei lá. Daria um trabalhão, mas pelo menos poderia liberar o espaço.

Mas aí entra minha relutância em desfazer de (algumas) coisas físicas. Acho que tudo está ficando tão virtual na nossa geração. E ainda acho tão bacana e visitar museus e ver os artefatos físicos, coisas que pessoas de séculos passados tocaram, vestiram, usaram. Tem algo de especial em tocar um objeto velho. Em ler a letra cursiva de uma pessoa da família. Parece que nos aproxima mais do passado, daquelas pessoas que já não são mais.

Sigo, então, registrando, escrevendo, fotografando. Sei lá porquê. É algo que me dá prazer. Um dia, quando eu não estiver mais aqui, os que ficarem que resolvam o que fazer. Jogar fora, queimar, deletar. Não importa. Por enquanto, é importante pra mim.