Minha lindinha,
A última carta que mamãe te escreveu foi quando você completou um aninho. É verdade que eu tenho procurado registrar o seu desenvolvimento de outras formas, mas acho que está na hora de mais uma cartinha, né?
Você já tem quase um ano e meio. E como você mudou de cinco meses pra cá! Você já mostra sinais claros da sua personalidade: forte, birrenta, escandalosa. Como pode ser tão diferente da irmã?
Depois que você aprendeu a subir degraus, não parou mais. E quanto mais cresce, mais alcança novos degraus e já consegue subir no sofá, na cama da Laura, e mais recentemente na cadeira da mesa de jantar, e até na mesa! Um dos seus lugares preferidos é no banheiro, subindo no banquinho branco da Laura, que fica do lado do vaso. Descer também não é problema pra você, na maioria das vezes. Até escada que eu tinha medo de deixá-la descer, você já me provou que não é boba nem nada e desce direitinho, ou de costas, ou sentadinha, degrau por degrau.
Outra diversão favorita sua é abrir portas e gavetas. E prender os dedos nas gavetas não te intimida, você volta lá e fica abrindo e fechando. E não só isso, mas você adora esvaziar todas as prateleiras que encontra pela frente. Gavetas também. Outro dia lambeu um sabonete que estava no gabinete do banheiro. Também pegou alguma coisa da lixeira embaixo da pia da cozinha e botou na boca. Tive que improvisar e amarrei as portas do armário da cozinha. Mas as gavetas ficaram desprotegidas. O jeito foi mover as coisas de dentro, as perigosas, pra outro canto. Semana passada mesmo, enquanto eu lavava a louça, você pegou a caixinha de palitinhos da gaveta e espalhou TODOS no chão. Você não pára.
Eu não sei nem porque temos brinquedos em casa. Você não dá a mínima pra eles. O teu negócio é tudo que não é brinquedo. É amassar os guias de turismo; tirar todas as cartas de baralho da caixa; mexer no palm do seu pai e sumir com a canetinha dele; subir no rádio que fica no chão e tirar os CDs da prateleira, um por um; tirar todos os DVDs das caixas, e claro, não por de volta; pegar os panos de prato sujos do balde na lavanderia e espalhá-los pela casa; arrastar a cadeira da escrivaninha; enfiar-se atrás da TV e ficar mexendo nos fios; mexer nos controles e deixar tua irmã louca quando você muda de canal. Brinquedo? Não, não é pra você.
Alice, você é geniosa. Demais. Tem horas que grita, bem estridente e alto, de arranhar a garganta. Quando você quer uma coisa, não aceita não como resposta. Chora, grita. Quer comer sozinha e o prato tem que estar na sua mesinha. Se eu te dou comida na boca, você vira a cara e grita, reclama, e não come. Se a Laura te prende, você morde. Tadinha da Laura, já tem algumas marquinhas nos braços e até na barriga, mordidas suas.
Mas você também tem seu lado doce, meigo. Adora fazer gracinhas pra gente, ri franzindo os olhinhos, toda dengosa. Abraça a Laura, faz carinho em mim e encosta a cabecinha no ombro do papai. Faz “mwah” pra dar beijo. Embala as bonecas como se fosse mãe delas.
Eu brinco dizendo que você é meu chicletinho. Você simplesmente não desgruda de mim. Pelas manhãs, quando Laura está na escola, você não dorme mais e também mal me deixa trabalhar. Se estou no computador, você senta no meu colo e quer mamar, ou quer mexer nos fios. Às vezes, na cozinha, você agarra minhas pernas e não me deixa. Na hora de dormir é o meu colo que você quer. E eu ao mesmo tempo que me canso, adoro o seu chamego. Sei que você não vai ser bebê pra sempre e quero aproveitar todos os momentos que temos juntinhas.
Você já se comunica perfeitamente. Apesar de ainda não falar muitas coisas legíveis, a gente entende tudo que você quer. Você balança a cabeça tanto pra “não” quanto pra “sim”. E você fala “cáca” quando faz cocô. Essa eu reparei recentemente. Toda vez que você fala a palavra eu vejo sua fralda e está toda suja. Não dá pra acreditar que você praticamente me avisa que fez cocô!
Assim como a sua irmã, você, aos dezessete meses, ainda mama no peito. De dia, de noite. Agora o peito é mais um lugar de aconchego pra você do que de alimento. É o que você quer na hora de dormir, ou logo que acorda. Ou quando está à toa e quer grudar em mim. Não sei até quando vamos assim, mas por enquanto está bem.

Te amo muitão,
Mamãe
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